segunda-feira, 11 de abril de 2022

A descoberta que pode desencadear 'maior revolução na Física desde as teorias de Einstein'

 Pallab Ghosh

BBC Brasil 

CRÉDITO,FERMILAB

Detector do Colisor no Fermilab obteve resultado 

que pode revolucionar Física moderna

Cientistas nos arredores de Chicago, nos Estados Unidos, descobriram que a massa de uma partícula subatômica não é o que deveria ser - uma descoberta surpreendente que pode revolucionar a Física e nossa compreensão sobre o Universo.

A medição é o primeiro resultado conclusivo de um experimento que está em desacordo com uma das teorias mais importantes e bem-sucedidas da Física moderna.

A equipe descobriu que a partícula, conhecida como bóson W, tem mais massa do que o que as teorias previam.

O resultado foi descrito como "chocante" pelo professor David Toback, co-porta-voz do projeto.

A descoberta pode levar ao desenvolvimento de uma nova e mais completa teoria de como o Universo funciona.

"Se esses resultados forem comprovados por outros experimentos, o mundo parecerá diferente", diz ele à BBC News. "Tem que haver uma mudança de paradigma. A esperança é que talvez esse resultado seja o que causará uma ruptura".

"O famoso astrônomo Carl Sagan disse que 'afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias'. Acreditamos que temos isso."

Os cientistas do CDF (Fermilab Collider Detector, ou Detector do Colisor no Fermilab), no Estado americano de Illinois, encontraram apenas uma pequena diferença na massa do bóson W em comparação com o que a teoria diz que deveria ser — apenas 0,1%.

Mas, se isso for confirmado por outros experimentos, as implicações são enormes. O chamado Modelo Padrão da física de partículas previu o comportamento e as propriedades das partículas subatômicas sem qualquer discrepância por 50 anos. Até agora.

O outro co-porta-voz da CDF, professor Giorgio Chiarelli, do INFN Sezione di Pisa, na Itália, diz à BBC News que a equipe de pesquisa mal pôde acreditar quando viu os resultados.

"Ninguém estava esperando por isso. Achamos que talvez tivéssemos algo errado."

Mas os pesquisadores analisaram meticulosamente os resultados e tentaram procurar erros. E não encontraram nenhum.

A conclusão, publicada na prestigiosa revista científica Science, pode estar relacionada a pistas de outros experimentos no Fermilab e no Grande Colisor de Hádrons, na fronteira suíço-francesa. Essas conclusões, ainda não confirmadas, também sugerem desvios do Modelo Padrão, possivelmente como resultado de uma quinta força da natureza em jogo ainda não descoberta.

Os físicos sabem há algum tempo que a teoria precisa ser atualizada. O conceito não é capaz de explicar a presença de material invisível no espaço, chamado Matéria Escura, nem a contínua expansão acelerada do Universo por uma força chamada Energia Escura. Tampouco a gravidade.

Mitesh Patel, da Universidade Imperial College de Londres, no Reino Unido, que trabalha no LHC, diz acreditar que, se o resultado do Fermilab for comprovado, pode ser o primeiro de muitos novos resultados capazes de provocar a maior mudança em nossa compreensão do Universo desde as teorias da relatividade de Einstein, mais de cem anos atrás.

"A esperança é que essas rachaduras se transformem em abismos e, eventualmente, veremos algum sinal espetacular que não apenas confirma que o Modelo Padrão caiu por terra como uma descrição da natureza, mas também nos dá uma nova direção para nos ajudar a entender o que estamos vendo e como é a nova teoria da física".

"Se isso for verdade, deve haver novas partículas e novas forças para explicar como tornar esses dados consistentes".

CRÉDITO,FERMILAB

Sediado em um terreno de 2,7 mil hectares perto de Chicago, Fermilab 

é o principal laboratório de física de partículas dos Estados Unidos

Mas, apesar do entusiasmo, a comunidade física permanece cautelosa. Embora o resultado do Fermilab seja a medida mais precisa da massa do bóson W até hoje, ele está em desacordo com duas das próximas medidas mais precisas de dois experimentos separados que estão de acordo com o Modelo Padrão.

"Isso vai desagradar algumas pessoas", diz o professor Ben Allanach, físico teórico da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

"Precisamos saber o que está acontecendo com a medição. O fato de termos dois outros experimentos que concordam entre si e com o Modelo Padrão e discordam fortemente desse experimento me preocupa".

Todas as atenções estão agora voltadas para o Grande Colisor de Hádrons, que deve reiniciar seus experimentos após uma reforma de três anos. A esperança é que esses testes forneçam os resultados que estabelecerão as bases para uma nova teoria da física mais completa.

"A maioria dos cientistas vai estar um pouco cautelosa", diz Patel.

"Já passamos por situações parecidas antes e ficamos desapontados, mas todos esperamos secretamente que seja realmente isso, e que em nossa vida possamos ver o tipo de transformação sobre a qual lemos nos livros de história".


Valorizar a ciência e os pesquisadores

 Soraya Smaili, Flavia Calé e Odir Dellagostin

O Estado de São Paulo

A economia do século 21 tem o saber como seu principal motor. A disputa, hoje em dia, é pela fronteira do conhecimento, o que faz as nações desenvolvidas voltarem suas atenções para debates acerca da revolução 4.0, da internet das coisas, da nanotecnologia, do uso sustentável dos recursos naturais e da inteligência artificial. A ciência e a tecnologia precisam estar no centro da estratégia de desenvolvimento de um país. Mas, infelizmente, seguimos na contramão desta tendência mundial.

A Levy Economics Institute publicou em 2017 que, a cada 1% do Produto Interno Bruto (PIB) de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), pode-se ter um retorno de 9,92%. Em São Paulo, cada R$ 1 investido em educação e pesquisa na agropecuária paulista se converte em R$ 10 a R$ 12 para a economia local. Proporções semelhantes se verificam nos investimentos na Embrapa: R$ 1 para R$ 12, segundo estudo publicado em 2019. Ou seja, é a mensuração de que investir em ciência é investir no desenvolvimento econômico e social.

Estima-se que o Brasil destina cerca de 1% do PIB para o setor, quando deveria investir pelo menos o dobro. Com orçamentos decrescentes, as principais agências federais de fomento à pesquisa estão deixando os grupos de pesquisa desamparados. A infraestrutura dos laboratórios e o quadro de funcionários que atuam na pesquisa nas diversas áreas do conhecimento estão defasados. O desmonte da ciência e tecnologia brasileira se torna ainda mais evidente quando focamos nos pós-graduandos, que contribuem diretamente com aproximadamente 90% da pesquisa nacional.

Atualmente, o pesquisador da pós-graduação está desamparado. Sem reajuste há nove anos, o estudante brasileiro que se dedica exclusivamente à pesquisa não tem meios para viver dignamente. O valor pago pela bolsa de mestrado (R$ 1.500) e doutorado (R$ 2.200) não é suficiente para a tarefa de formar novas gerações de cientistas. A inflação medida pelo IPCA acumula 63,47% de alta desde 2013 – data do último reajuste. Isso significa que, para voltarem a ter os mesmos valores do último reajuste, a bolsa de mestrado deveria ser de pelo menos R$ 2.450,00 e a de doutorado deveria ser de R$ 3.600,00. Em toda a série histórica, o valor das bolsas nunca esteve tão baixo. Em 1995, a bolsa de mestrado tinha um valor que hoje corresponde a R$ 4.287,00 e a de doutorado era de R$ 6.353,00.

A consequência deste cenário é o aumento da evasão da carreira científica no País. Dados do Anuário Estatístico de 2021 da Universidade de São Paulo (USP) apontam a queda no número de titulações em razão de trancamentos de matrículas e desistências na ordem de 27,6% entre 2018 e 2020. Em âmbito geral da pós-graduação, o auge no número de titulados no País se deu em 2019. Foram 15.940 mestres profissionais, 54.131 mestres acadêmicos e 24.422 doutores. Em 2020, houve uma redução geral destes números, que passaram a 13.979, 46.060 e 20.066, respectivamente.

A redução da concorrência nas seleções de mestrado e doutorado nos programas também é sintoma da pouca atratividade da ciência para os jovens. Para muitos, a alternativa tem sido o subemprego para sustentarem suas atividades ou simplesmente o abandono da carreira científica. Estamos podando o futuro da ciência na fonte, ao restringir a formação de novos talentos.

Outro problema que estamos vivenciando e que vem crescendo é a fuga de cérebros. Com a escassez de financiamento para a pesquisa, pesquisadores qualificados estão buscando oportunidades em outros países. Depois de o País ter investido na formação destes doutores, deixamos de ter a contribuição deles para resolver os problemas atuais e futuros do nosso país e aceitamos que suas habilidades sejam aplicadas para o aumento do conhecimento e da riqueza de outros países. Em outras palavras, deixamos escapar a oportunidade de ampliarmos a geração de conhecimento, o que poderia garantir nossa autonomia tecnológica e, portanto, soberania e prosperidade ao País. Estancar a perda de talentos no País é tarefa estratégica para a reconstrução nacional.

As fundações estaduais de amparo à pesquisa (FAPs) vêm suprindo parte da lacuna deixada pelas agências federais, tanto no auxílio à pesquisa quanto na concessão de bolsas de mestrado e doutorado. Sete FAPs, preocupadas com a defasagem no valor das bolsas, já anunciaram reajustes de aproximadamente 25%. Outras oito FAPs estão avaliando a possibilidade de reajustar o valor ainda em 2022.

É imperativo que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que responde por 75% das bolsas de mestrado e doutorado do País, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que responde por mais 13%, promovam o reajuste imediato das bolsas, seguindo o exemplo das FAPs. Esta ação significa valorizar os pesquisadores e a ciência, base para a geração de conhecimento e inovação, motor para o desenvolvimento tecnológico, econômico e social do País.

*RESPECTIVAMENTE, PROFESSORA TITULAR DA ESCOLA PAULISTA DE MEDICINA, REITORA DA UNIFESP (2013-2021), COORDENADORA-ADJUNTA DO CENTRO DE SAÚDE GLOBAL E COORDENADORA-GERAL DO SoU_CIÊNCIA; PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUANDOS (ANPG) E PESQUISADORA DO SoU_CIÊNCIA; E PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E DO CONSELHO DE FUNDAÇÕES DE AMPARO À PESQUISA NO BRASIL


Plataformas do futuro

 Valéria França

Revista ISTOÉ

Empresas petroleiras investem para comandar automaticamente da terra as atividades em alto mar com a perspectiva de não precisar mais de tripulação a bordo dentro de uma década

(Crédito: Marco Ankosqui)

SIMULAÇÃO O engenheiro Kazuo Nishimoto 

em cabine de realidade virtual para testes 

Plataformas não tripuladas representam o sonho da indústria do petróleo. Isso significaria que todas as operações realizadas em alto mar – da perfuração à separação do óleo e do gás — seriam controladas de uma central instalada no continente. Já existe uma experiência de plataforma não tripulada que vem sendo realizada no Mar do Norte, em Osemberg, pela norueguesa Equinor, desde 2018.

Trata-se ainda de um projeto piloto, mas que inspira toda a indústria no mundo. Isso inclui a Petrobras, que investe em novas tecnologias, para transformar o projeto em realidade. Mas a empresa avisa que não existe ainda tecnologia para desabilitar completamente uma plataforma flutuante de produção de grande porte, como as do Pré-Sal. 

No mundo real, elas ainda são supertripuladas ¬— acomodam quase 200 pessoas. Especificamente as plataformas do Pré-Sal ficam a 300 km do continente, o que as obriga a ter uma infraestrutura hoteleira juntamente com uma outra de produção navegando em alto mar. “As plataformas são navios convertidos, onde se aproveita o casco que suporta o resto da estrutura”, explica Kazuo Nishimoto, professor do departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). “As tripulações se revezam em turnos, às vezes de 15 dias, quando então voltam para a vida no continente.” Nishimoto é um dos especialistas da universidade que realiza teste e desenvolve novas tecnologias para a indústria do petróleo. “Além de ser uma operação custosa, sempre há riscos por mais que a empresa seja rígida na segurança de trabalho e nos processos de mitigação dos acidentes e incidentes”, afirma.

 (Crédito:Divulgação)

CONVENCIONAL A plataforma P-74 

opera em Campos e Búzios com tripulação 

As primeiras explorações de petróleo foram em terra na Escócia, em 1850, e nove anos depois nos Estados Unidos. Elas se tornaram muito mais complexas quando foram para o mar, nos anos 1930 e 1950, na Venezuela e no Golfo do México. “Muitas atividades estão robotizadas”, diz Euardo Aoun Tannuri, professor de Engenharia Mecatrônica da Poli-USP. Já existem robôs, chamados de Pigs, que percorrem o interior dos tubos de óleo para encontrar fissuras no sistema. Tem ainda o ROV, que funciona a 2 mil metros de profundidade para arrumar um sistema de válvulas (chamado de árvore de natal), que pesa cerca de 90 toneladas e tem a função de controlar o fluxo e a vazão do petróleo e do gás. São vários os exemplos de tecnologia. “Essas atividade já são controladas por um profissional especializado por cabos como se fosse um videogame, mas ainda só podem ser feitos da plataforma e não do continente. O desafio é fazer isso do continente”, diz Tannuri.

Um grande passo nessa caminhada brasileira, no qual moram as apostas para se chegar à plataforma remota, é o desenvolvimento do Digital Twins. “Trata-se de um simulador capaz de reproduzir todos os processos da plataforma com os dados reais do ambiente em alto mar”, diz Nishimoto. Seria o mesmo, segundo ele, que produzir um sistema duplicado do corpo humano, que tivesse todas as medidas como pressão sanguínea e batimento cardíaco em tempo real. Ele permite que os técnicos simulem problemas como vazamento de óleo e gás, entre outros. “Mas para que funcionem sem a ajuda humana ainda é preciso desenvolver mais o sistema de inteligência artificial. Precisam ser expostos a mais situações para que resolvam com a mesma rapidez que o ser humano”, explica. Um bom paralelo com a situação das plataformas são os carros autônomos: eles já existem mais ainda não estão em linha comercial porque precisam ser aprimorados.

 (Crédito:Divulgação)

INOVAÇÃO Plataforma da Equinor, 

no Mar do Norte: monitorada do continente 

Desde a década de 1980, a Petrobras estabeleceu parcerias com a Universidade de São Paulo para desenvolver novas tecnologias. No campus existe um prédio batizado de Tanque de Provas de Números, onde os cientistas simulam vsituações. Por exemplo, existe ali um simulador de cabine de plataforma, onde são testados os cabos de amarração, diante de uma tempestade, entre tantas outras possibilidades. Trata-se de um trabalho incessante para aumentar a segurança e a eficiência do trabalho. “Aos poucos o número de pessoas é reduzido, mas ainda não tempos robôs que consigam ser tão flexíveis para entrar em um emaranhado de tubos para consertar um problema de válvula”, diz Tannuri. Outro ponto é a transmissão de dados, que da plataforma para a terra depende de um satélite, que não transmite em tempo real e ainda falha. “Estamos no caminho para a plataforma não tripulada. Em dez anos, até menos, devemos chegar a um cenário bem próximo disso”, projeta.


Cesp inicia operação de 1ª usina termossolar do Brasil, estuda novas tecnologias

 Letícia Fucuchima

Revista ISTOÉ 

Linhas de transmissão de energia em Brasília (DF)

SÃO PAULO (Reuters) – A Cesp colocou em operação uma planta piloto de geração termossolar, que utiliza o calor do sol para produzir energia elétrica, avançando com sua proposta de estudar e integrar novas tecnologias ao portfólio.

Erguida no município de Rosana (SP), a usina tem 0,5 megawatt (MW) de capacidade e é a primeira do Brasil a usar a fonte, também chamada de heliotérmica ou CSP, que tem características diferentes da solar fotovoltaica, bastante disseminada e aplicada em usinas de pequeno a grande porte.

A termossolar, fonte já com maior desenvolvimento em países como Estados Unidos e China, utiliza um processo semelhante ao de termelétricas tradicionais. Mas, em vez de combustíveis fósseis, recorre ao calor do sol para aquecer um fluido que produz vapor e movimenta turbinas para gerar eletricidade.

O sistema construído pela Cesp –controlada pela VTRM, uma joint venture entre Votorantim e Canada Pension Plan Investment Board– usa calhas parabólicas, formadas por painéis compostos por espelhos côncavos que seguem a posição do sol.

O calor capturado aquece um fluido que circula por tubos posicionados na linha de foco dessas calhas.

Segundo Luis Paschoalotto, gerente de Engenharia de Operação e Manutenção da Cesp, a principal vantagem da fonte heliotérmica em relação a outras renováveis intermitentes é a possibilidade de armazenamento de calor para utilização em momentos de maior necessidade para o sistema elétrico.

“Quando transformamos raio solar em calor, em fluido quente, é relativamente simples de guardar essa energia. No nosso caso, guardamos num tanque de óleo quente… as fontes solares são suscetíveis à variação, conforme entra nuvem, sai nuvem… como podemos estocar calor, essa é uma vantagem para manter a produção da planta”, explicou.

Os custos relacionados ao desenvolvimento de uma planta termossolar são mais elevados que os de uma usina fotovoltaica, mas a expectativa é de que tende a ganhar competitividade com ganho de escala.

Paschoalotto afirmou que a companhia mapeou duas aplicações para a tecnologia: a geração de energia centralizada, principalmente em usinas 30 a 50 MW, e o aproveitamento do calor em processos industriais, como na cogeração. Nesse último caso, eventuais aplicações ainda estão em fase de estudos acadêmicos.

A usina da Cesp começou a ser desenvolvida em 2017 e recebeu investimentos de 57 milhões de reais, no âmbito de um projeto de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da Agência Nacional de Energia Elétrica. São parceiros no projeto Instituto Lactec, Eudora Energia, MRTS Consultoria e MFAP Consultoria.

NOVA FONTE

A planta termossolar foi instalada no complexo de energias alternativas da hidrelétrica Porto Primavera, uma espécie de laboratório da Cesp para “tatear” novas tecnologias, como hidrogênio verde e sistemas de armazenamento de energia, disse Paschoalotto.

“A companhia criou esse laboratório… para que em algum momento usasse esse know-how adquirido.”

A Cesp está em processo de incorporação à nova geradora de energia dos controladores Votorantim e Canada Pension Plan Investment Board. O novo veículo para investimentos em energia nascerá com uma matriz diversificada, de 3,3 GW combinando as hidrelétricas da Cesp e eólicas da Votorantim Energia, além de uma carteira de 1,9 GW em projetos.

TERMOSSOLAR EM CASA

Em linhas gerais, a tecnologia do projeto da Cesp é a mesma utilizada em aquecedores solares de água, equipamentos com ampla adoção no Brasil e que podem ajudar a aliviar o sistema elétrico em horários de ponta, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Térmica (Abrasol).

Um levantamento da entidade aponta que o volume de aquecedores solares já instalados no país é equivalente a 13,5 gigawatts (GW), quase a mesma potência da usina hidrelétrica de Itaipu.

Recentemente, a entidade cobrou do governo a inclusão da tecnologia em planos nacionais de expansão de energia.

“É uma omissão inexplicável, pois se trata de uma tecnologia totalmente nacional, extremamente eficiente e capaz de ajudar o Brasil a evitar blecautes”, disse Luiz Antônio dos Santos Pinto, presidente da Abrasol, em comunicado.


Como DNA capturado na atmosfera pode revolucionar Biologia

 BBC News

 © Getty

O ar, embora invisível, está repleto de informações sobre os seres que habitam o planeta. Agora, dois experimentos recentes conseguiram capturar esses rastros que os animais deixam na atmosfera.

Essa conquista, dizem os autores dos experimentos, oferece uma nova abordagem para monitorar a biodiversidade e ajudar a proteger espécies que estão em perigo de extinção.

A descoberta foi feita graças ao que os especialistas chamam de "DNA ambiental", mais conhecido como eDNA, pelo nome em inglês.

Seres vivos deixam vestígios de seu DNA à medida que interagem com o meio ambiente. E este DNA ambiental é uma ferramenta útil para detectar uma grande variedade de espécies em diferentes habitats.

Muitos biólogos, por exemplo, usam o eDNA que os animais deixam na água para mapear espécies em ambientes aquáticos.

No entanto, capturar DNA do ar é muito mais complexo. É por isso que as duas novas experiências são um avanço neste campo.

O que esses experimentos alcançaram e como eles podem ajudar a proteger a biodiversidade?

 © Getty 

Os animais deixam vestígios de DNA ao interagir com o meio ambiente.

No rastro dos animais

Existem vários métodos para rastrear ou monitorar a presença de animais. Os cientistas geralmente usam câmeras ou os observam diretamente. Ou também seguem pistas como pegadas ou fezes.

Esses métodos, no entanto, exigem que os animais estejam presentes ou tenham estado presentes recentemente, e podem ser técnicas invasivas.

Em vez disso, a captura de DNA do ar oferece a vantagem de detectar animais que não estão ao redor. A desvantagem é que o eDNA é facilmente diluído no ar, tornando-o mais difícil de detectar.

Duas equipes separadas — uma na Dinamarca e outra no Reino Unido e Canadá — criaram uma maneira de capturar o eDNA.

Para fazer isso, eles usaram uma série de dispositivos de captura de ar e os testaram em dois zoológicos europeus — um no Reino Unido e outro na Dinamarca.

 © Christian Bendix

Pesquisadoras usaram dispositivos de sucção de ar para capturar DNA

Prender o ar

A equipe da Dinamarca usou um aspirador à base de água e dois ventiladores, que foram colocados em três áreas diferentes do zoológico.

Um dos ventiladores tem o tamanho de uma bola de golfe.

Já a equipe do Reino Unido e do Canadá instalou várias bombas de vácuo com filtros, com as quais recolheram 70 amostras em várias partes do zoológico.

Com essas técnicas de captura de ar filtrado, os pesquisadores obtiveram amostras de DNA dos animais.

Essas amostras podem ser vestígios de saliva, pele, fezes ou respiração flutuando no ar, embora os pesquisadores não tenham determinado a fonte exata do DNA.

Ambos os experimentos foram bem-sucedidos, detectando eDNA mesmo do lado de fora dos zoológicos.

A equipe dinamarquesa obteve 40 amostras de ar, nas quais detectaram 49 espécies, incluindo mamíferos, aves, anfíbios, peixes e répteis.

 © Elizabeth Clare

 Elizabeth Clare coletando amostras de DNA do ar

"Ficamos surpresos quando vimos os resultados", disse Kristine Bohmann, professora de Genômica Evolutiva da Universidade de Copenhague e líder do estudo.

Por sua vez, a equipe do Reino Unido e do Canadá identificou DNA de 25 espécies, incluindo tigres, lêmures e dingos (um canídeo selvagem da Austrália).

Eles detectaram até mesmo o DNA de animais que estavam dentro de prédios fechados.

"Os animais estavam do lado de dentro, mas seu DNA estava vazando", disse Elizabeth Clare, professora da Escola de Ciências Biológicas e Químicas da Universidade Queen Mary de Londres.

Proteção de espécies

A descoberta de ambos os estudos demonstra que o eDNA do ar pode ser usado para monitorar espécies em seu habitat natural. 

© Elizabeth Clare 

Nesta imagem, dingos do zoológico de Hamerton (Inglaterra)

 são vistos ao lado de um dispositivo para capturar seu DNA no ar

"A natureza não invasiva dessa abordagem a torna particularmente valiosa para observar espécies ameaçadas ou vulneráveis, bem como aquelas em ambientes de difícil acesso, como cavernas e tocas", diz Clare.

"A amostragem de ar pode revolucionar o biomonitoramento terrestre e fornecer novas oportunidades para rastrear a composição das comunidades animais, bem como detectar a invasão de espécies não nativas."

Bohmann disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) que o desafio agora é testar sua técnica em ambientes menos controlados, como uma reserva ou um parque natural, e descobrir quanto tempo o eDNA dura flutuando no ar.

Mehrdad Hajibabaei, professor do departamento de Biologia Integrativa da Universidade de Guelph, que não esteve envolvido nas experiências, chama os dois estudos de "uma ótima maneira de provar o conceito de que o eDNA pode ser detectado a partir de amostras de ar filtradas".

 © Getty 

O próximo passo é testar a técnica em ambientes menos controlados

"No futuro, essa abordagem pode ser validada expandindo a amostragem para ambientes ecológicos naturais, como parques nacionais ou áreas de conservação", disse Hajibabaei à BBC News Mundo.

Uma opinião semelhante é defendida por Michael Russello, professor do Departamento de Biologia da Universidade de British Columbia, que também não esteve envolvido nos estudos.

"Esses dois estudos realmente expandem o potencial do eDNA para fornecer informações em várias áreas, desde biodiversidade e espécies invasoras, até saúde pública, apenas para citar algumas", disse Russello à BBC Mundo.

Russello também defende que a aplicação dessas técnicas em ambientes menos controlados trará mais complexidades, mas que ambos os experimentos "representam desenvolvimentos instigantes" nessa área de pesquisa.


Vida no metaverso: como a realidade virtual poderá afetar a percepção do mundo ao redor

 Shin Suzuki

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,GETTY IMAGES

Mundos virtuais estão mais próximos de virar realidade

"Talvez isso soe como ficção científica", diz Mark Zuckerberg. "Nos próximos cinco ou dez anos muitos de nós estaremos criando e habitando mundos tão detalhados e convincentes como esse aqui."

As frases foram ditas em um evento surpresa no final de outubro em que o presidente do Facebook anunciou que sua companhia mudaria de nome para Meta e que sua prioridade agora seria o desenvolvimento de um metaverso.

Segundo a apresentação, Zuckerberg planeja, para um futuro breve, óculos leves e finos de realidade virtual (e não o volumoso equipamento de hoje) como porta de entrada para mundos online onde seria possível estudar, ver filmes e shows, praticar exercícios físicos, encontrar amigos, conhecer pessoas e fazer compras.

Os debates sobre as definições e as fronteiras entre os conceitos ainda estão abertos, mas a popularização do metaverso deve representar um passo seguinte à realidade virtual (também definida como a sensação de imersão viabilizada por óculos 3D e visão 360°) e a outras tecnologias, como a realidade aumentada (que une elementos virtuais e paisagens reais. Um exemplo é o game Pokémon Go). 

Plataformas de games como Fortnite e Roblox já são tipos de metaverso — e têm gerações mais novas imersas neles. A Microsoft também desenvolve o seu, o Mesh for Teams, focado no trabalho: um mundo virtual como ferramenta corporativa. O projeto de metaverso de Zuckerberg é mais amplo.

"Nós acreditamos que o metaverso será o sucessor da internet móvel", declarou ele no evento de divulgação da Meta. As implicações no mundo, se essa previsão se concretizar, podem ter consideráveis repercussões dado que mais de 4 bilhões de pessoas no mundo se valem do celular para conexão a web e a apps.

Novas experiências

Atualmente o tempo gasto com telas já é bastante questionado. A empresa de análise App Annie diz que, nos últimos dois anos, o uso diário em aplicativos móveis subiu 45%, impulsionado pela pandemia — o líder no levantamento é o Brasil, com média de 5,4 horas por dia e 30% de aumento.

O cientista Jeremy Bailenson, diretor-fundador do laboratório que estuda realidade virtual na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, diz em seu livro de 2018 Experience on Demand (Experiência sob Demanda, em inglês) que o tempo passado com óculos "é psicologicamente muito mais poderoso do que qualquer mídia já inventada e se prepara para transformar dramaticamente as nossas vidas".

Com outras formas de representação, quase sempre estamos cientes da artificialidade das sensações, afirma Bailenson. Na realidade virtual, as fronteiras começam a ficar um pouco confusas: os equipamentos de hoje já proporcionam uma imersão significativa — e o avanço da tecnologia nos próximos anos promete experiências mais poderosas.

"Nosso cérebro fica confuso o suficiente para entender esses sinais como realidade? Onde quer que você entre na discussão 'um meio pode influenciar o nosso comportamento?', eu posso te garantir: a realidade virtual influencia. Há muitas pesquisas, realizadas por décadas em meu laboratório e em outros lugares do mundo, que demonstram esses efeitos", analisa o cientista.

"Para algumas pessoas, a ilusão é tão poderosa que o sistema límbico [região do cérebro envolvida com emoções e memória] delas entra em um estado de atividade intensa."

Bailenson relata um tour dado a Mark Zuckerberg em 2014 em que demonstrou experimentos de seu laboratório e uma conversa na qual "alertou sobre os atuais custos sociais do vício generalizado em sedutores mundos de fantasia, pornografia e videogames e como esses custos serão multiplicados em uma mídia poderosamente imersiva".

Poucas semanas depois do encontro, o Facebook, hoje Meta, anunciou a compra por US$ 2 bilhões de um fabricante de óculos de realidade virtual, a Oculus VR.

Imersos no metaverso

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Imersão no digital mexe com nossos sentidos e sentimentos

Devemos ficar preocupados? Bailenson, que é um entusiasta das possibilidades da realidade virtual e a vê como instrumento para empatia, diz à BBC News Brasil que "a palavra 'cautela' é mais apropriada do que preocupação".

"Nós devemos estar vigilantes, ler os termos de privacidade [de um produto como o metaverso], não usando a realidade virtual cegamente para todas as atividades e observando algumas regras de segurança."

Uma de suas recomendações é limitar a duração de imersão com os óculos a 30 minutos. Uso excessivo causa enjoo e fadiga ocular. Associações de oftalmologia no Reino Unido e nos EUA, no entanto, ainda não encontraram evidências de danos permanentes aos olhos. Mas pedem estudos de longo prazo.

Em 2014, um psicólogo da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, passou 24 horas em uma sala de realidade virtual em condições monitoradas e relatou que houve desorientação "sobre estar em um ambiente virtual ou no mundo real" e confusão a respeito de "certos artefatos e eventos entre os dois mundos".

Três anos depois, uma dupla estabeleceu um recorde no Guinness ao assistir a 50 horas seguidas de conteúdo em realidade virtual. Um dos participantes, Alejandro Fragoso, relatou que se sentiu "absolutamente horrível" e "desconectado do mundo real e da passagem do tempo".

Um dia no metaverso

Maratonas como esses experimentos são exceção, mas o plano descrito por Zuckerberg leva diversas esferas da vida para dentro do metaverso, o que ocuparia parte significativa das 24 horas do dia.

A Meta enviou um comunicado dizendo que "o metaverso ainda está um pouco distante e não será construído da noite para o dia".

"A Meta vai dialogar com legisladores, especialistas, acadêmicos, sociedade civil e parceiros da indústria para ajudar a dar vida ao metaverso, que funcionará como uma combinação híbrida das experiências sociais online atuais, às vezes expandidas em três dimensões ou se projetando no mundo físico. Não é necessariamente sobre passar mais tempo online, mas tornar mais significativo o tempo que você está online".

Também declarou que "o metaverso é a próxima evolução em uma longa jornada de tecnologias sociais. A Meta não construirá, não será a dona e nem poderá realizar sozinha o metaverso. A construção do metaverso será similar ao processo que levou à criação da internet, e não ao lançamento de um app individual".

Douglas Rushkoff, estudioso da cultura digital e autor do livro Team Human (Time Humano, em tradução livre), afirma à BBC News Brasil que "há uma ideia de que gostaríamos de trabalhar, ter entretenimento, exercícios e atividade criativa nesses espaços virtuais ou de realidade aumentada. Isso pode ter sido bom durante a pandemia de covid, mas há muitas desvantagens que isso se torne permanente".

"Acho que as pessoas se comunicam umas com as outras de maneiras sutis. O modo como trabalhamos e como fazemos amor é mais complicada do que essas simulações podem proporcionar", diz.

Fronteiras diluídas 

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Mark Zuckerberg anunciou que sua prioridade é 

construir um universo alternativo de realidade virtual

Alvaro Machado Dias, neurocientista especializado em novas tecnologias e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entende que "a gente já vem de uma fase de diluição entre o online e o offline".

"Existe um ponto em que não há mais capacidade intencional de separar esses mundos. A gente vive num ambiente em que tecnologia digital é muito parte da nossa cultura", diz.

Ele, no entanto, considera que o modelo de negócios da Meta pode representar uma barreira para sua popularização.

"Óculos são desconfortáveis e dão vertigem. Não acho que as saídas futuras mais fortes serão com o uso massificado de óculos".

Ele vê mais chances de sucesso no conceito de realidade aumentada da Disney, que envolverá tanto os parques quanto sua plataforma de streaming, e no projeto da Microsoft de criar um metaverso corporativo.

Segundo Machado Dias, "há muito tempo o Facebook vem buscando caminhos para ter domínio sobre a plataforma em que seu software é usado".

A decisão da Apple de limitar o rastreamento de informações do usuário por aplicativos do iPhone representou problemas para a forma como o Facebook conseguia seu faturamento — propagandas definidas por algoritmo. O iPhone é majoritário no mercado norte-americano e atrai clientes de poder aquisitivo maior.

"A solução ideal, então, seria ter um novo mundo como plataforma, independente do celular. O modelo de metaverso do Facebook responde a esse desafio de mercado."

As dificuldades de Zuckerberg

Há um outro obstáculo: a reputação da empresa.

Douglas Rushkoff considera as críticas e o acúmulo de controvérsias em torno de Zuckerberg como um fator limitante para a popularização do seu metaverso.

"Acho que as pessoas entendem que o Facebook está desaparecendo em muitas maneiras, particularmente quando veem desvantagens e más intenções. [O nome] 'Meta' é uma maneira de a empresa se reposicionar em uma indústria diferente. Mas há algo de desespero nisso."

Mas, para Rushkoff, "as pessoas podem ser estúpidas, especialmente quando alguém mostra a elas algo bonito. Ninguém confia em Zuckerberg, mas ninguém sente que tem muito a perder".

No últimos anos, ex-funcionários do Facebook têm vindo a público com relatos de que a companhia não toma atitudes sobre problemas em suas redes sociais, como a influência prejudicial na saúde mental de adolescentes, o papel na propagação de fake news e o vazamento de dados pessoais de usuários.

Em diversas oportunidades, Zuckerberg pediu desculpas sobre os fatos apontados e disse que a companhia precisava melhorar.

Bailenson, do laboratório de realidade virtual na Universidade Stanford, quando questionado sobre a apresentação do metaverso feita por Zuckerberg e se a impressão sobre o criador do Facebook mudou desde o encontro em 2014, afirmou que "continua a conversar com líderes de corporações e governos na tentativa de guiá-los sobre as provações e tribulações da realidade virtual".


Retomada nuclear

Denise Mirás

Revista ISTOÉ

Em apoio à meta pela neutralidade do carbono até 2050, a energia atômica renasce no continente europeu e o gás ganha um selo ambiental como ponte entre os combustíveis fósseis e as fontes sustentáveis

 (Crédito: SEBASTIEN BOZON / AFP)

POTÊNCIA Com 56 usinas nucleares, como a de Fessenheim,

 a França encosta em um terço do total da Europa 

O reconhecimento de usinas nucleares como produtoras de energia limpa e sustentável pela Comissão Europeia, na semana passada, abre dois caminhos. Um deles, em direção ao forte renascimento dessa fonte em países que se mostram dispostos a reduzir emissões de gás carbônico para brecar catástrofes, conforme o Pacto de Glasgow, de novembro passado. O outro, para bilhões em investimentos saindo de governos ou de fundos privados rumo a grandes conglomerados ligados a essa indústria e que já se mostram prontos para oferecer novos produtos, como os microrreatores.

(Crédito:Divulgação)

 “A energia nuclear não é um mal em si. Mas, podemos dizer,

 que ela tem seu lado escuro da força” Ricardo Lima, consultor da área de energia 

Quanto à “tolerância” na classificação do gás natural como sustentável, que, na verdade, é fóssil e não-renovável, se dará até 2030, de acordo com a proposta aprovada na Comissão Europeia. Até lá, esse combustível terá o “selo verde” para servir como ponte na transição para a totalidade de energias verdadeiramente limpas e sustentáveis, como solar e eólica – que não são abundantes na Europa.

Para o físico Ricardo Lima, consultor da área de energia, desastres como de Chernobil (1986) e Fukushima (2011) não foram esquecidos e, de fato, mesmo com todo o avanço da tecnologia de segurança, “os riscos de acidentes são controláveis, mas até certo ponto”. Com 40 anos de experiência, ele lembra que a questão do que fazer com os rejeitos nucleares, “que têm mais vida que algumas civilizações”, vem desde a década de 1950 e nunca foi resolvida. “Seja colocando os resíduos em embalagens de concreto que seguem para o fundo do mar e podem se romper com o tempo, seja a partir de projetos para mandar o lixo ao espaço, literalmente, o perigo é constante”.

Risco de contaminação

 

Lima explica que a operação de usinas nucleares tem dois problemas: o risco de contaminação e a necessidade de encontrar um local seguro para os rejeitos. Além disso, o custo para erguê-las é elevado e a construção quase nunca é concluída no tempo previsto, em torno de dez anos. Mas a Europa não conta com fontes alternativas suficientes de energia renovável, tendo pouco acesso ao sol e também a ventos onshore (dentro dos países). “Há apenas alguns desenvolvimentos, como no Mar do Norte ou na costa de Portugal”, explica Lima, observando que o gás natural pode ser menos prejudicial que o óleo combustível e o carvão, mas também colabora para o efeito estufa. “Por isso, sem muitas opções verdadeiramente limpas e sustentáveis, a Europa deu uma maquiada no assunto”, observa o físico.

A aprovação da energia nuclear e do gás como fontes sustentáveis pelo órgão executivo da União Europeia teve lobby intenso da França – que em 2021, segundo a European Nuclear Society, somava 56 usinas em seu território (responsáveis por 70% do abastecimento energético do país), com mais uma em construção e projetos para outras seis. O argumento a favor da energia nuclear remete ao cumprimento da meta assinada por mais de 200 países em Glasgow, na COP-26 de novembro, para baixar as emissões de carbono até 2050. Só assim se evitará o aumento da temperatura da Terra em 1,5° em relação à era pré-industrial, para impedir ondas de calor mortais, tempestades intensas ou escassez de água, colapsando ecossistemas.

A França conseguiu alianças inéditas com países do Leste Europeu, como República Tcheca e Polônia. E o apoio de indústrias como a Rolls-Royce, que fabrica motores para aviões a jato e usinas para submarinos da Marinha Real. A gigante britânica quer produzir micro-usinas nucleares pré-moldadas, para vender ao custo de 2,3 bilhões de libras esterlinas, ou R$ 16,5 bilhões, contra os 22,5 bilhões (R$ 160 bilhões) calculados para usinas convencionais. Para o físico Lima, já faz alguns anos que se fala dessas usinas compactas, de 50 megawatts, que poderiam ser feitas e implementadas mais rapidamente, além de melhor espalhadas, “mas o tamanho menor não inibe riscos”. Para ele, “a energia nuclear não é um mal em si, tanto que é usada em diversas situações como tratamento de câncer, por exemplo, mas tem seu lado escuro da força, podemos dizer”.

Alemanha na contramão

 Thomas Peter

Os alemães seguem com o compromisso de eliminar todas as usinas nucleares no país até o final desse ano, como fechou a de Greifswald, em 2014. Das seis restantes, responsáveis por 12% da eletricidade produzida em 2021, três foram fechadas no início de janeiro. Energias renováveis já participavam com 41% do total, ficando o carvão com 28% e o gás, com 15%.

O país quer expandir a infraestrutura solar e eólica para que 80% de sua produção de energia saia dessas fontes renováveis até 2030, alcançando a neutralidade de carbono em 2045, anos antes da meta estipulada em Glasgow. Áustria, Dinamarca, Luxemburgo e Portugal também se colocaram contra a expansão nuclear. Quando ao gás, a Alemanha defende seu uso, como necessário no período de transição.


Estudo descobre relação da solidão com hormônio e comprova conceitos evolutivos desde Darwin

 Luiz HenriqueOliveira

BolaVip

Buscando entender a base neural da solidão, que já era percebido antes do confinamento durante a pandemia de Covid-19 resultado da cultura tecnológica e das redes sociais, acentuando-se ainda mais com o isolamento social, uma pesquisa liderada por Kansai Fukumitsu da RIKEN Center for Brain Science (CBS) no Japão, encontrou um indicador molecular e regulador do isolamento social em camundongos fêmeas.


Para entender melhor o estudo e como ele poderia interferir nos humanos, após encontrarmos similaridades com os conceitos de memória primitiva, burla de código genético e processo evolutivo do PhD em neurociências, biólogo, antropólogo e membro da Society for Neuroscience nos Estados Unidos, o luso-brasileiro Dr. Fabiano de Abreu Agrela, a relação deste estudo e como ele pode auxiliar neste que, segundo ele, a solidão, é um problema que precisa de atenção: "está determinado em nosso código genético a necessidade de interação, quando burlamos esta determinação, sofremos consequências que podem elevar a ansiedade e trazer danos para a saúde mental." inicia o cientista.

 © Fornecido por Bolavip Brasil - Foto: MF Global
Dr. Fabiano de Abreu 

O novo estudo revelou que o comportamento de busca de contato social em camundongos é impulsionado pelo peptídeo amilina na área pré-óptica medial (MPOA) do prosencéfalo, e que estar sozinho diminui a quantidade de amilina nessa região do cérebro. " A amilina é um hormônio amiloidogênico sintetizado e co-secretado com insulina pelas células β pancreáticas, possui "locais" de ligação no cérebro, regulando a saciedade e o esvaziamento gástrico."

Amilina é protagonista

A sinalização do receptor de amilina-calcitonina (Calcr) na área pré-óptica medial (MPOA) medeia contatos sociais afiliativos entre camundongos fêmeas adultas. Com o seu isolamento, a primeira reação foi a busca pelos contatos, depois comportamentos depressivos, ansiedade, em paralelo a perda da expressão do mRNA da amilina no MPOA. Isso quer dizer que a socialização física ativa os neurônios que expressam amilina e Calcr e leva a uma recuperação da expressão do mRNA da amilina.

"Isso é semântico a parentalidade, observada em mamíferos como camundongos e humanos. Onde os cientistas desde Darwin já vinculavam essa afiliação social como evolutivo do cuidado parental. Os resultados do estudo determinam que a amilina é o protagonista no cérebro necessário para detectar e buscar contatos sociais" finaliza Dr. Fabiano de Abreu




Linguagem de programação brasileira criada para Petrobras é febre mundial

 Daniela Arcanjo

Folha de São Paulo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na tela, uma avó de longos cabelos grisalhos, shorts jeans e andador recebe as duas netas em casa. É uma senhora ranzinza e pouco convencional, que dança É o Tchan na sala, dirige um trailer e leva as crianças para a balada. O vídeo, recheado de efeitos sonoros que lembram programas de televisão vespertinos, tem mais de 1,4 milhão de visualizações no YouTube.

A peça foi feita em uma plataforma de jogos online chamada Roblox, um fenômeno de entretenimento e de mercado. Em 2021, protagonizou uma das maiores estreias na bolsa do ano, quando foi avaliada em US$ 45 bilhões (R$ 225,6 bilhões). Os jogos da empresa fundada por um canadense e um americano são especialmente famosos entre crianças e, de alguma forma, se cruzam com a Petrobras e a PUC-Rio.

Parte da plataforma é feita em Lua, linguagem de programação de maior êxito desenvolvida fora do norte global. Ela foi criada no instituto de computação gráfica Tecgraf, da universidade carioca, pelos pesquisadores Roberto Ierusalimschy, Waldemar Celes e Luiz Henrique de Figueiredo. Sua primeira versão é de 1993.

Na época, eles desenvolviam um programa para a Petrobras traçar perfis de poços de petróleo, o que foi bem-sucedido. "Uma das aplicações foi usada por mais de dez anos", relembra Roberto. Parte do sucesso está relacionada a uma característica: ser de fácil compreensão ao usuário final.

"A ideia é que as pessoas possam resolver sozinhas os seus problemas e não precisem contatar os programadores, pedir a resolução e esperar duas semanas pela resposta", explica o pesquisador.

Em uma comparação, é como se Lua estivesse mais próxima do usuário, enquanto a C, por exemplo, complexa linguagem criada em 1972, estivesse mais próxima do hardware. Mesmo quando colocada ao lado da linguagem Python, conhecida pela simplicidade, Lua se destaca. A brasileira sustenta 21 palavras-chave —aquelas reservadas para formar os comandos no código—, enquanto Python tem 33.

Essas características limitam a sua atuação, mas a tornam a alternativa ideal para quem quer autonomia, objetivo dos pesquisadores. Até hoje, há produtos feitos com a Lua para a Petrobras, mas não só para ela.

Angry Birds, jogo de pássaros contra porcos que foi febre nos celulares no início da década passada, também usa Lua, assim como o famoso jogo de estratégia World of Warcraft. Até mesmo a Nasa já a utilizou.

"Ser leve, portátil e de fácil integração com outras linguagens era desde o início a nossa intenção. Agora, que isso seria exatamente o que o pessoal de jogos precisava foi mirar em uma coisa e acertar em outra. Eles nos descobriram", diz Roberto.

Roblox é um dos exemplos mais famosos atualmente. Segundo dados do balanço da empresa do final do ano passado, foram 45,5 milhões de usuários ativos por dia em 2021 —um aumento de 40% em relação a 2020. Eles passaram 41,4 bilhões de horas na plataforma, o que resultou em uma receita de quase US$ 1,9 bilhão (R$ 9,5 bilhões).

Nicolly Martins Ferreira, 12, é responsável por algumas dessas horas. É dela e de suas primas a autoria do vídeo com mais de um milhão de visualizações descrito no início do texto.

Os jogos do Roblox foram os primeiros mais elaborados com que ela teve contato —antes, passava o tempo com o Pou, bichinho virtual atualizado para a era da internet.

Ainda assim, era pouco complexo para o seu pai. "Quando ela começou a jogar Roblox, eu até brincava: 'Nick, pelo amor de Deus, se você quiser jogar no meu PlayStation 3 ali, você pode jogar'", diz Leonardo em uma chamada de vídeo ao lado da filha. "Eu achava um joguinho muito estranho, quadradinho."

Ele se refere aos desenhos do jogo, que podem ser chamados de rudimentares quando comparados com os realistas gráficos dos atuais games. As árvores são quadradas e, para entrar em um carro, por exemplo, as portas não são abertas —o avatar simplesmente passa pelo que seria a lataria, como um fantasma.

Nicolly, ou Nick, como consta no seu canal no YouTube de 460 mil inscritos, não se importa. "Não pesa tanto e dá para jogar no celular", diz ela, sentada em uma cadeira gamer rosa e vestindo um fone de ouvido da mesma cor, ornado com orelhas de gatinho.

Para ela, o jogo do momento na plataforma é o Brookhaven, que simula a vida de um personagem e é parecido com o The Sims. "Tem de trabalhar, tomar banho, pagar conta", explica ela. "É como se fosse a vida real, se você não trabalha, você não tem dinheiro."

Nele é possível tirar fotos, guardar itens em uma mochila, jogar em um tablet e dirigir, por exemplo. Também dá para fazer coisas fantásticas, como estourar bombas sem destruir nada e criar uma piscina em segundos, como ela e suas duas primas fizeram no vídeo.

Cada uma das três interpretava e controlava uma personagem enquanto a tela era gravada, com direito a variações no tom de voz (mais infantil para crianças e mais madura para a avó). O jogo é uma atualização das brincadeiras analógicas com bonecos.

A plataforma foi finalizada em Lua para dar liberdade aos usuários que quiserem criar os seus próprios jogos ou manipular os existentes.

"Tem muitas pessoas que usam para fazer uma coisa voar, por exemplo", diz Nicolly. Por enquanto, ela não se aventura nesse universo, mas aprender a Lua está em seus planos para aperfeiçoar a brincadeira.

"O Roblox ensina as crianças a programar", diz Waldemar, um dos criadores da linguagem. Quem entendeu isso foi a startup indiana Byju's Future School, que chegou ao Brasil no meio do ano passado. Ela ensina crianças e adolescentes de 6 a 15 anos a programar com a plataforma de games.

"É muito bom saber que crianças de 10, 11 anos aprendem a programar em Lua. É naquele universo do jogo deles, mas elas aprendem a essência da programação", diz ele.

Além de tornar a linguagem palatável para crianças e iniciantes, a simplicidade da Lua é um trunfo para este mundo em que há pequenos computadores em nossas cortinas, pulsos e geladeiras.

"A gente brinca, mas é real. Ela roda dentro de forno de micro-ondas, TVs, impressoras, teclados. Existem exemplos comerciais de todos esses produtos", diz Roberto.

A Volvo Cars, por exemplo, usou a linguagem durante anos em seu computador de bordo, motivo de orgulho aos criadores. "Não é pesquisa por pesquisa, é pesquisa transformada em um produto tecnológico mundialmente usado", diz Luiz Henrique.

Na internet das coisas, ou iOT, nome dado à tendência de interconexão de objetos cotidianos, a Lua tem competidores —o programador Vinicius Zein, por exemplo, esperava que a linguagem fosse mais rodada em sistemas de baixa capacidade. Ele é especialista em sistemas embarcados e já usou a Lua para programar em um telefone corporativo.

"Eu percebo uma segmentação muito grande nesse mercado. Se fosse para a Lua ocupar esse lugar de protagonista, acho que já deveria ter ocupado", diz Vinicius.

O futuro, porém, pode ser ainda mais promissor.

"Hoje eu vejo Lua sendo muito mais usada em games do que em iOTs. Mas daqui a 10, 15 anos, essas crianças serão profissionais", diz ele. "Talvez isso traga para o mercado um pool de desenvolvedores em Lua muito grande."


Como a guerra na Ucrânia ameaça dividir a internet no mundo

 Jane Wakefield

Repórter de tecnologia, BBC News 

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Muitas das regras do comércio global foram abaladas após

 a invasão da Ucrânia pela Rússia. A internet será a próxima?

Os tempos atuais não têm precedentes para o mundo físico e digital, à medida que se intensifica o conflito na Ucrânia.

Gigantes corporativos como Meta, Google e Apple, que sempre se caracterizaram como empresas neutras na área de tecnologia, estão agora exibindo suas cores políticas, retirando seus produtos da Rússia em resposta à invasão da Ucrânia.

Enquanto isso, a própria internet está mudando para os usuários russos. O Twitter e o Facebook estão bloqueados, o TikTok não permite postagens de usuários da Rússia e há relatos de que a polícia está interpelando as pessoas nas ruas para saber o que elas estão vendo nos seus telefones celulares.

A pergunta agora é se o conflito pode alterar não apenas a geografia do mundo, mas mudar fundamentalmente a natureza da internet global.

A Rússia deveria ser excluída da internet? 

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Provedores de internet da Rússia precisaram

 testar recentemente uma versão russa da rede

O governo ucraniano selecionou firmas de tecnologia específicas para pedir que elas banissem seus serviços na Rússia e a lista de firmas de tecnologia que se recusam a fazer negócios ou vender produtos no país vem crescendo a cada dia que passa.

Agora, os líderes do setor de alta tecnologia estão pedindo algo a mais: desligar completamente a Rússia da internet global.

Esses pedidos foram respondidos com um sonoro "não" da Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (ICANN, na sigla em inglês), que é o órgão encarregado de controlar a internet. Ela recebeu um pedido para cancelar os domínios de topo russos, como .ru, além dos certificados SSL ("Camada de Soquete Seguro", em tradução livre do inglês) associados ao país.

Mas o lema da ICANN é "Um Mundo, Uma Internet" e, em resposta ao vice-primeiro-ministro da Ucrânia Mykhailo Fedorov, o executivo-chefe da corporação, Göran Marby, afirmou que "dentro da nossa missão, mantemos a neutralidade e agimos em apoio à internet global. A nossa missão não inclui a tomada de ações punitivas, incluindo sanções, nem a restrição de acesso contra segmentos da internet - independentemente das provocações".

Diversas organizações apoiaram essa decisão, incluindo o grupo de privacidade digital Electronic Frontier Foundation (EFF). Corynne McSherry e Konstantinos Komaitis, da EFF, declararam que a guerra não é uma época para "causar desordem na internet".

Segundo a EFF, interferir nos protocolos fundamentais de infraestrutura da internet teria "consequências perigosas e duradouras". Entre essas consequências, destacam-se:

A empresa de infraestrutura da Web Cloudflare, que oferece proteção contra ciberataques, também foi chamada pela Ucrânia para que encerrasse seus serviços na Rússia. Em seu blog, a empresa afirmou ter analisado o pedido, mas concluiu que "a Rússia precisa de mais acesso à internet e não menos".

O que é a Splinternet e como ela funciona? 

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A versão chinesa da internet é muito diferente da que vemos no Ocidente

Para muitas pessoas, os pedidos de corte formaram um caminho perigoso rumo ao que é conhecido como a Splinternet - diferentes países terem diferentes versões da internet.

A Grande Muralha Digital da China, como é chamada, talvez seja o exemplo mais óbvio de como um país pode criar a sua própria Web. Mas, no Irã, o conteúdo da rede também é policiado e as informações externas são limitadas pela companhia estatal de telecomunicações iraniana.

A própria Rússia vem fazendo experiências com uma internet independente - apelidada de Runet - há vários anos, mas ajustada à internet existente, diferentemente da versão chinesa, que foi construída a partir do zero.

Em 2019, o governo russo afirmou ter testado o sistema com sucesso. Poucos entendiam sua necessidade na época, mas, no contexto atual da invasão da Ucrânia, "faz muito mais sentido", segundo Alan Woodward, cientista da computação da Universidade de Surrey, no Reino Unido.

Naquele teste, solicitou-se aos provedores de internet da Rússia que configurassem a internet dentro das suas fronteiras como se fosse uma intranet gigante - uma rede privada de websites sem comunicação com o mundo exterior. A iniciativa envolveu a restrição dos pontos em que a versão russa da internet conectava-se com a sua correspondente global.

Agora, aparentemente a Rússia está testando de novo esses sistemas. Um memorando do governo russo pediu aos provedores de internet que reforçassem sua segurança e se conectassem aos servidores DNS (sistema de nomes de domínio, em tradução livre do inglês) na Rússia.

Alguns acreditaram que o memorando e a data de realização do teste (11 de março) significavam que a separação da Rússia da internet era iminente. Mas Woodward considera que este seja mais um teste de prontidão.

"Foi algo mais como a Rússia convocando os provedores da internet a ficarem prontos, fazendo cópias locais do DNS (a lista telefônica da internet) e para que tivessem versões locais de software de terceiros provenientes de servidores fora da Rússia, como o Javascript", afirma ele.

Desde então, a Rússia vem negando que irá cortar-se da internet, afirmando que o teste foi destinado a proteger websites russos de ciberataques do exterior. Mas James Griffiths, autor do livro The Great Firewall of China ("A Grande Muralha Digital da China", em tradução livre), acredita que o plugue poderá ser desligado a qualquer momento.

"Cortar a internet, assegurando que os russos consumam apenas o conteúdo aprovado pelo Kremlin, esse tipo de coisa, estrategicamente faz sentido, de forma que você pode ver o rumo que estamos tomando", declarou ele à BBC. "Eu não ficaria surpreso se [esse corte] entrasse em vigor nas próximas semanas ou meses."

Quais seriam as consequências? 

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Fragmentar a internet é inevitável?

Abishur Prakash, autor do livro The World is Vertical: How Technology is Remaking Globalisation ("O mundo é vertical: como a tecnologia está refazendo a globalização", em tradução livre), acha que o conflito está remodelando a internet, de "um sistema global ao qual todo o mundo está conectado" para algo mais fragmentado.

"Devido à geopolítica, está surgindo um projeto diferente para a internet, no qual os países são cortados ou desenvolvem suas próprias alternativas. As pontes globais, como as plataformas de redes sociais, que possuem populações conectadas há décadas, estão sendo destruídas", afirma ele.

E, segundo James Griffiths, o novo eixo de poder da internet será dividido entre o Ocidente e a China/Rússia. "Fang Binxing, conhecido como o pai fundador da Grande Muralha Digital da China, visitou a Rússia em 2016 para ajudá-los no que estão fazendo e tornar o firewall russo muito mais similar ao chinês", afirma ele.

E ele acredita que a Rússia novamente se voltará para Pequim à medida que as empresas da internet retiram seus produtos e serviços. Para ele, "à medida que a economia russa é excluída de grande parte da economia global, eles estão se voltando para a China. Eles precisarão confiar ainda mais na China do que no passado."

Até o momento, empresas chinesas de tecnologia, como a Huawei, não declararam nada oficial sobre o conflito.


Cortina de ferro digital: como a internet russa se assemelha ao modelo chinês

 Rishi Iyengar

CNN Business

Apesar de criar dificuldades para mídias do Ocidente, especialistas acreditam que a Rússia ainda não possui tecnologia o suficiente para criar um ambiente digital isolado como o da China

  Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Logos do Instagram, Facebook e WhatsApp

Os usuários da internet da Rússia tem oscilado entre Ocidente e Oriente, como acontece com muitos outros setores no país.

Os cidadãos russos, ao contrário dos chineses, conseguiam acessar plataformas de tecnologia dos Estados Unidos, como o Facebook, o Twitter e o Google, embora tenham estado sujeitas a censura e restrições —caraterística definidora do modelo de internet da China.

Mas a invasão russa da Ucrânia, que vem isolando o país nos últimos dias, pode também ser o golpe fatal de sua presença na web mundial.

Na sexta-feira (4), com a intensificação das sanções à Rússia e dos combates na Ucrânia, o governo russo disse que tinha decidido bloquear o Facebook, citando os movimentos da rede social nos últimos dias para impor restrições aos meios de comunicação controlados pela Rússia.

Embora o Facebook não seja a maior plataforma no país, bloqueá-lo pode ser um passo simbólico para indicar que o governo do presidente Vladimir Putin está preparado para fazer o mesmo com grandes nomes globais, caso eles não sigam suas determinações.

O Instagram e a WhatsApp, que são mais populares na Rússia e também são propriedade da empresa-mãe do Facebook, a Meta, ainda não foram bloqueados.

Já a principal agência de telecomunicações do país, a Rozkomnadzor, tem pressionado o Google (GOOGL) sobre o que ela chama de informações “falsas”, e a CNN contou que o Twitter (TWTR) também foi restrito. Outras plataformas estão optando por interromper as operações por conta própria.

Ser cortado da Rússia pode não representar uma ameaça às plataformas tecnológicas ocidentais, algumas com público na casa dos milhares. Mas as iniciativas têm implicações importantes para a capacidade dos russos de acessarem informação e se expressarem livremente. Indo além, poderia também acelerar a ruptura da internet global como a conhecemos.

Cortina de ferro digital

Muitas das recentes restrições da Rússia em plataformas de tecnologia ocidental derivam de uma lei de “internet soberana” promulgada pela Rússia em 2019, que permite que a Roskomnadzor controle mais firmemente o acesso à internet no país e potencialmente rompa seus laços online com o resto do mundo.

Uma lei aprovada pelo governo de Putin na sexta-feira (4) põe mais lenha à fogueira da hostilidade aos serviços ocidentais, tornando crime divulgar informações “falsas” sobre a invasão da Ucrânia, com uma pena de até 15 anos de prisão, de acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas.

A lei levou vários meios de comunicação, incluindo a CNN, a suspender a sua cobertura de dentro do território russo. O TikTok também citou o novo ambiente legal ao anunciar a sua decisão de evitar novos uploads e transmissões ao vivo em sua plataforma na Rússia.

 / Reprodução 

Google, Twitter, Netflix (NFLX), Spotify (SPOT) e Meta 

bloquearam ou restringiram meios de comunicação russos estatais 

Outras empresas de tecnologia já haviam reduzido a presença na Rússia em meio ao conflito da Ucrânia. Apple, Microsoft e Intel pararam todas as vendas e restringiram serviços no país, enquanto Google, Twitter, Netflix (NFLX), Spotify (SPOT) e Meta bloquearam ou restringiram meios de comunicação russos estatais e, em alguns casos interromperam campanhas de publicidade no país.

A Congent Communications, um dos maiores provedores de tráfego de internet do mundo, começou a cortar fornecedores de serviços russos na sexta-feira.

É uma tempestade perfeita que poderia levar a Rússia a finalmente isolar a sua população do resto da internet global, como a China já faz.

“A crise é um ponto de inflexão para plataformas ocidentais que operam na Rússia”, comentou Jessica Brandt, diretora de políticas de iniciativa de Inteligência Artificial e Tecnologia Emergente da Brookings Institution. “O governo russo continuará, sem dúvida, a pressionar as plataformas para eliminar conteúdos que não o favorecem, utilizando toda a alavancagem disponível. Se as empresas cumprirem, a reação negativa pública noutros lugares do mundo será intensa”, acrescentou.

O termo usado para se referir aos respetivos aparelhos de censura dos dois países também é semelhante: a China tem o seu Grande Firewall, a Rússia ganhou o apelido de “cortina de ferro digital”. Mas, embora existam muitas semelhanças entre as duas, há também algumas diferenças fundamentais que trazem dúvidas sobre a capacidade da Rússia em manter o seu próprio ecossistema digital autônomo.

Viver sem tecnologia ocidental?

Enquanto a China tem passado as últimas décadas construindo suas ferramentas de censura de longo alcance e tenha quase sempre impedido a maioria das plataformas tecnológicas ocidentais de operar no país, a Rússia tentar fazer o mesmo enquanto trava uma guerra.

A capacidade da Rússia de implementar o mesmo nível de tecnologia que a China é questionável, quer seja a de tornar plataformas ocidentais completamente inacessíveis, quer seja de censurar conteúdos e tópicos específicos em tempo real, como exercido frequentemente pelo governo chinês.

“Acho que uma diferença entre a Rússia e a China é que a China tem a capacidade técnica; o Grande Firewall chinês é muito sofisticado e a Rússia não está nesse ponto”, pontuou disse Xiaomeng Lu, diretora da prática de geotecnologia do Eurasia Group. “Embora a Rússia queira fazer um bloqueio completo e abrangente, acho que, tecnicamente, há alguns desafios”.

Ao contrário da China, milhões de pessoas na Rússia estão habituadas a acessar plataformas tecnológicas globais e cortá-las completamente a partir dessas plataformas é um passo que o governo russo, sob Putin, se absteve de tomar até agora. Mas isso está mudando rapidamente com a guerra e as sanções crescentes impostas pelo Ocidente.

“Acho que fechar completamente abre o risco de algum tipo de reação política para o governo”, disse Lu. No entanto, ela acrescenta, “esse tipo de medo está perdendo para o medo da sobrevivência a longo prazo do regime”.

A dependência da Rússia em relação à tecnologia externa tem sido exposta, já que as empresas estrangeiras cortaram laços em resposta às sanções ocidentais. A Sabre, uma empresa do Texas, e sua homóloga europeia Amadeus tiraram a maior companhia aérea russa, a Aeroflot, de seus sistemas globais de compras de passagens e reservas na semana passada. O banco central do país também anunciou que o Apple Pay e o Google Pay não aceitarão mais cartões de vários bancos russos.

A Rússia tem alternativas às plataformas globais, tais como o sistema de busca Yandex e a rede social VK, com dezenas de milhões de usuários. Mas a especialista Lu afirma que “o ecossistema não é tão robusto como o da China”, que tem várias gigantes tecnológicas, incluindo Tencent (TCEHY), Alibaba (BABA) e Weibo (WB), que rivalizam com as do Vale do Silício.

 / Reprodução 

Sede do Yandex, serviço de buscas russo 

As plataformas russas também enfrentam os seus próprios danos colaterais a partir da invasão da Ucrânia e das sanções ocidentais.

O Yandex avisou na semana passada que o colapso do mercado de ações devido às sanções poderia impedir que a empresa pagasse as suas dívidas, e Vladimir Kiriyenko, CEO da empresa-mãe da VK, está entre os indivíduos sancionados pelo governo dos EUA.

Na segunda (7), a empresa de investimento holandesa Prosus anunciou que estuda anular o seu investimento na VK, no valor de cerca de US$ 700 milhões, e solicitou aos diretores no conselho de administração da empresa que se demitissem.

Derrota do povo russo

Embora o governo russo pareça mais do que pronto para expulsar as plataformas tecnológicas ocidentais das suas fronteiras digitais, o mesmo não pode ser dito do povo russo.

“O governo russo vai ganhar com a saída das Big Tech”, disse Brandt. “É o povo russo que vai perder enormemente se eles forem despojados de acesso a notícias e informações não governamentais e não tiverem negados os meios para se organizar”.

Já há sinais de que os russos estão procurando maneiras de fugir aos bloqueios da internet. Cinco dos 10 principais apps baixados no país na semana passada eram aplicativos de rede privada virtual (VPN), que permitem aos usuários criar uma ligação à internet mais segura. Os downloads de apps de VPN mais populares durante este período aumentaram mais de 1.300%, segundo a plataforma de monitoramento de aplicativos Sensor Tower.

De uma forma ou de outra, a “cortina de ferro digital” parece estar caindo.

Lu admite que é difícil prever exatamente a rapidez com que uma completa separação da internet da Rússia do mundo terá lugar, mas os acontecimentos recentes indicam que poderia acontecer em “semanas ou talvez mesmo dias”.